A FÉ ANICÔNICA:

INTRODUÇÃO:

Não sei se você já se perguntou, porque a fé cristã protestante, ela é anicônica?

Bom, primeiro, é preciso entender que o Deus da Bíblia não é contra a arte, haja vista que ele dotou cada ser humano com um dote artístico. Incumbe lembrar que a escultura é uma das onze artes. Com efeito, no passado falava-se apenas em sete artes, hoje, contudo, fala-se em onze artes, ou seja, música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, cinema, fotografia, história em quadrinhos, jogos eletrônicos e arte eletrônica.

Numa primeira cena, é preciso considerar que o texto bíblico traz á baila que não deveríamos fazer para nós imagem de escultura ou de fundição; a imagem de escultura é feita sobre madeira, palha, gesso, enquanto que imagem a de fundição é feita sobre metais, mas Deus as proibiu, o que faço questão de transcrever:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra”. (ÊXODO 20:4).

Com efeito, o problema não está na inteligência lapidária, mas como essa inteligência é usada. Não há veto ao trabalho artística escultural, mas ao trabalho escultural idolátrico. Veja-se que o que está escrito no texto bíblico, mais precisamente no Decálogo não é uma orientação ou uma parenética (exortativa), mas uma ordem apodítica. Diga-se de passo, que em vários textos de minha lavra, tenho salientado que há uma diferença entre apodítica e casuística. De modo que, há uma diferença entre o que está posto no Decálogo (apodítica) e o que está plasmado em Deuteronômio 28, ou seja, no pronunciamento das bençãos e maldições (casuística).  

A grande diferença entre uma coisa e outra é que na apodítica estou diante de uma ordem, e na casuística fico diante de uma escolha. Gize-se que há uma grande diferença entre ordem (impositiva) e escolha (propositiva).

Vem a lume que quando Deus imperativamente enuncia que não é para fazer algo, espera que não se faça, e que qualquer relativização será considerada uma transgressão.

De outra banda, Deus estava rompendo com a ideia de um culto totêmico ou totemismo, pois, a superstição de que uma determinada imagem afugentaria os demônios, o que chamamos de pensamento apotropaico (ou seja, visante a afastar o mal). A apotropaica era a crença que determinados rituais e imagens afastavam os espíritos ou deuses maus. Inscreva-se, o Totem era uma espécie de carranca na entrada da tribo, ao passo que espalhavam-se essas carrancas ao redor da tribo com o mesmo objetivo de afugentar os espíritos maus ou demônios.

Os totens, reitero, eram imagens tribais postas ao redor das tribos, as quais visavam a proteção de determinado sítio tribal. A par disso, nota-se que cada totem tinha uma representação especial totêmica que simbolizava o pálio sob o qual aquela tribo se sentia protegida. Aquela proteção imagética também tinha uma ideia de hierofania, isto é, guardava a ideia do sagrado, de tal sorte que as tatuagens, pinturas faciais, pinturas de guerra, estavam sempre relacionadas com essa crença. Entretanto, o problema maior consistia em que as tribos tinham como deuses um determinado animal, ou elemento natural (como cachoeira, rio, sol, lua), aos quais se reputava um poder acima de outros seres. Segundo o professor e antropólogo Levi-Strauss não existe inferior e superior entre índios e civilizados, mas posturas diferentes com relação a criação; o que nos faz certamente compreender o universo cultual. Muitas vezes o universo cultual está intimamente ligado ao universo cultural. Nunca é demais lembrar que tanto culto como cultura vêm da mesma raiz semântica, ou seja, cultus, do latim, cultivo. Nota-se, isso porque o culto no passado era agrário, ou se oferecia um boi, ou uma vaca, ou cereais a Deus. O oferente se encontrava com Deus no altar de sacrifício.

I – DEUS NÃO É AVESSO À ARTE

Frente ao exposto, basta olharmos para os escolhidos de Deus para a execução do projeto de construção do tabernáculo, que concluiremos que Deus escolheu hábeis artesãos (Êxodo 31). Muito que bem, parece que a Palavra de Deus está toda codificada, haja vista que logo depois, no capítulo 32 o povo ergue um bezerro de ouro (Êxodo 32), imagem de fundição. E pelo que se sabe o bezerro foi esculturado sem nenhum critério artístico. A sintática bíblica permite-nos entrever que Beseleel e Ooliab eram os melhores artistas da 4ª arte (escultura). Contudo, a arte foi feita de forma açodada e apressada, e com uma finalidade que malferia o mandamento de Deus.

A inspiração artesã dos indigitados artistas veio do Espírito Santo pelo que chamamos de epifania. Toda a epifania manifesta na vida desses homens se voltou para a hierofania (revelação do sagrado).

Assim, de outra banda, precisamos diferir adoração à Divindade da adoração à entidade. Viceja dizer, os aborígenes da Austrália adoravam as entidades e não à divindade.

II – NÃO SE PODE CONFUNDIR A ARCA DO CONCERTO COM OBJETO IDOLÁTRICO

Vale considerar que durante a minha vida toda ouvi alguns colegas de teologia da igreja católica afirmando que a arca do concerto seria assemelhada a imagem dos santos e ídolos da igreja católica. Logicamente, isso não é verdade, prima facie, pelo ambiente cultual que envolvia a arca, pois a arca não recebia adoração, mas era uma representação do pacto com Deus. Uma coisa é ser vista como um deus, e outra coisa é representar o pacto com Deus, são coisas absolutamente distintas.  A arca do concerto não era um deus, mas a representação do pacto com o verdadeiro Deus. A fortiori, o que tinha sentido na arca era o que estava dentro dela, e não o que estava fora. O sentido da arca cercada por anjos, depois a propiciação sobre a arca (cobrindo o pacto) e entre o céu (simbolizada pelos querubins) e o pacto (símbolo de mediação), e a vara de Arão, as tábuas da lei e o maná dentro da arca, aludem verdades concêntricas. As relações concêntricas verticais e horizontais.

III – NÃO SE PODE CONFUNDIR A SERPENTE DE BRONZE LEVANTADA NO DESERTO COM A IDOLATRIA

Quem deu a melhor interpretação para a serpente de bronze foi o Senhor Jesus Cristo. Nota-se que o Senhor Jesus Cristo desvela que a serpente de bronze levantada no deserto era uma profecia a respeito de sua crucificação (João 3:12-15). A serpente não foi inventada para servir a propósito idolátrico, mas profético-messiânico.

Contudo, destaco que tanto é verdade que estou a afirmar que a Palavra de Deus traz o registro que quando o povo começou a adorar a serpente de bronze, Deus pôs no coração de Ezequias destruí-la. Como está escrito no capítulo 18, verso 4º, de II Reis, a saber:

“Ele tirou os altos, e quebrou as estátuas, e deitou abaixo os postes-ídolos, e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porquanto até aquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã”.

O fato é que o povo tem uma forte tendência a materializar a fé, como se lê também no diálogo entre Jesus e a mulher samaritana (João 4), em que com clareza solar, ela pensava no monte Gerizim com um pensamento idolátrico, o qual Jesus fez questão de desmontar, ao dizer:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.”

Verdadeiramente, o transcendente está posto na interpretação do Senhor Jesus Cristo, ao passo que Ele afirma que sua vinda ao mundo foi para salvar a humanidade, e a serpente é antetipo da crucificação do Senhor Jesus Cristo, o que não aduz dulia ou hiperdulia, menos ainda adoração.

A dulia é uma palavra grega que tem o sentido de veneração. A dulia está para a latria como a iconofilia está para a idolatria. Explico, o lugar iniciático da idolatria, ou a ante sala da idolatria é a dulia, pois, alguém se diz devoto por um determinado ente. A dulia tem íntima relação com o henoteísmo, pois, no passado os crentes criam em Deus (Iavé) como Deus Supremo, mas admitiam que outros deuses coadjuvavam no cenário do Poder divinal. Para os católicos romanos a hiperdulia é dedicada a Maria, como se fosse uma semi-deusa, com força de mediação, o que fere (I Timóteo 2:5) a mediação de Cristo.

Viceja dizer que o povo de Israel foi durante muito tempo politeísta, depois henoteísta até declarar total fidelidade ao único Deus, como se lê no shema de Israel, verbis:

“Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”. (Deuteronômio 6:4).

Está desenhado no shema o pacto monoteísta.

Vamos pensar, tanto a veneração como a adoração fazem parte da devoção. Na hermenêutica da devoção de um lado você tem a adoração e do outro você tem a veneração. A devoção é o apego sincero, sentimental e litúrgico com relação a Deus ou aos santos. Daí se infere que a devoção abarca duas modalidades de apresentação cúltica.  

Nota-se que devoção é o ato de votar, ou de eleger espiritualmente alguém ou alguma coisa em nossas vidas, devoção é o que decorre do voto, é o liame entre o votante e o votado. Acresce a isso que a devoção é a ideia de zelo religioso e litúrgico.

Atento a tudo isso, podemos dizer que o povo de Deus tem iconografia, mas Deus não aceita a iconofilia. A nossa devoção e adoração devem estar voltadas e ligadas e consagradas em Cristo.

Do seu Bispo e Conservo Alexandre Rodrigues Metello.

 



 

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