Do Bp.Dr. Alexandre R. Metello
DA TERRA DO SILÊNCIO SOU CHAMADO
“E disse-lhe o rei: Onde está? E disse Ziba ao rei: Eis que está em casa de Maquir, filho de Amiel, em Lo-Debar”. (2 Samuel 9:4).
Introdução:
Um homem que residia em lo-debar, expressão hebraica que vem de “lo” (que decorre do advérbio de negação “não”, podendo significar “sem”, combinado a “debar” que significa “palavra”. Então, ele morava na terra “sem palavra”, “infans”, ou seja, na terra do silêncio. Me parece que o sofrimento dele era tanto que ele não conseguia sequer falar, mas apenas chorar. Este homem estava morando de favor na casa de Maquir. Que vida! Tudo isso aconteceu porque o avô dele desobedeceu a Deus e a família sucumbiu em desgraça, indo do reinado à falência total. Sublinha-se, o que uma geração faz pode empobrecer a próxima geração ou até mesmo uma quarta geração (Êxodo 20). O que uma geração faz, pode acarretar a falência de outra, um pecado pode levar por arrastamento uma desgraça para outra. Tudo aquilo que uma geração acumulou, pode ser perdido e gerar traumas irreparáveis.
Noutro passo, preciso dizer que certa feita eu aprendi com a Psicanálise a diferença entre a falta e a perda. Referida diferença é tema da Psicanálise, porque sempre os traumas foram objetos de pesquisa, estudo e análise da metapsicologia, por isso, indaga-se: O que é mais traumático? A falta ou a perda? Para definirmos o que é mais traumático, antes de tudo precisamos compreender cada uma delas. A falta é uma necessidade que nunca eu consegui suprir. Por exemplo, alguém não tem carro, não conseguiu comprar, mas viaja de ônibus com o coração em paz. O carro lhe falta, todavia, isso, ainda que podendo ser fonte de frustração, não o fere ao ponto de se sentir um desgraçado, sem falar que muitos optam por não terem carro, principalmente agora com o advento dos motoristas de aplicativo. Ademais, isso pode ser uma opção no bojo do que chamamos de “trade off”, ou seja, dentro de muitas opções do momento, é preferível ficar sem carro. Mas a perda é muito traumática. Você tinha um pai, e o perdeu! Ufa! Você tinha um emprego e foi demitido! Ufa! Você tinha um amigo e ele se foi! Ufa! Você tinha uma casa e ela foi objeto de uma execução numa demanda judicial, e você a perdeu! Dói demais. o fato é que ninguém espera perder alguém ou alguma coisa. E quando se perde tudo?! Já pensou nisso? Dói demais! Mas o protagonista de nossa história tinha perdido tudo, e algo surpreendente aconteceu com ele, de tal sorte que ele foi do luxo ao lixo, mas depois, ele saiu do lixo para o resgate e restituição de tudo. Você irá entender o que digo! Com efeito, peço vênia, pois acabo de lembrar de um texto, que merece algumas linhas dessa lição, leia-se:
⁵ Quem é como o Senhor nosso Deus, que habita nas alturas?
“O qual se inclina, para ver o que está nos céus e na terra! Levanta o pobre do pó, e do monturo levanta o necessitado. Para o fazer assentar com os príncipes, mesmo com os príncipes do seu povo. Faz com que a mulher estéril habite em casa, e seja alegre mãe de filhos. Louvai ao Senhor”. (Salmos 113:5-9). Deixo esse texto porque o personagem principal, o protagonista da nossa história experimentou da benevolência de Deus!
I – O que é benevolência?
A benevolência é algo que nos surpreende. Para quem não sabe, a benevolência para ser entendida como palavra posta, basta que a invertamos, pois bem, a benevolência é a volentia (vontade) de fazer o bene (bem). Portanto, é uma palavra composta de duas palavras. Assim, a benevolência é uma palavra que indubitavelmente foi esculpida por Deus. Mas, deixando de lado a sedução que as palavras me causam, vamos considerar a impressionante história de um homem chamado Mefibosete, posto que a sua história traduz no mais alto nível do sentido da palavra benevolência. O que se percebe nessa história de elevadíssima grandeza, é que talvez Mefibosete ao sopesar os atos do seu pai Jônatas, quiçá, pensasse – não entendo, o porquê de meu pai ter abdicado o trono?! Viceja dizer, depois ele entendeu tudo. Muitas direções que recebemos de Deus não entendemos, nem os nossos entendem, e, só iremos entender depois de algum tempo! Posso lhe adiantar que a decisão de Jônatas já era previdência e providência de Deus, em palavras outras, era benevolência de Deus.
II – O pano de fundo da benevolência de Deus
Vejamos, então, Mefibosete nascido por volta do ano 960 a.C., aleijado dos dois pés, órfão, uma vez que o seu pai morreu na batalha com o seu avô também, este rei de Israel. Ele era neto de rei de Israel, Saul, o maior inimigo de Davi. É de sabença de todos os estudantes da Bíblia que, Saul foi um terrível perseguidor de Davi, porém, Mefibosete apesar de ser neto de Saul era filho de Jônatas, um amicíssimo de Davi. Isto posto, vale dizer que está na história de Israel que Jônatas entendeu, inusitadamente, que Davi seria o próximo rei, no lugar de seu próprio pai, o que de fato é muito intrigante, pois, numa grande maioria, um herdeiro do trono jamais rejeitaria assumir o governo, ao contrário, a ferro e a fogo faria de tudo para ascender ao trono. Contudo, a história narra a belíssima amizade que Davi e Jônatas tinham entre eles (I Samuel do capítulo 18 ao 20). Ao passo que Jônatas pôde ver os sinais de que Deus escolheu a Davi e não ele para o trono. Isso é de uma maturidade sem igual, pois, maduro é aquele que cede passo à vontade de Deus. Lado outro, eu acredito que nós precisamos valorizar a amizade, pois, da amizade brota a benevolência. Apesar de todas as maldades de Saul, o que trouxe maldição para toda uma geração, Davi não olhou para os pecados de Saul, mas trouxe a memória a sua amizade por Jônatas.
II.1 – A amizade é o útero da benevolência
Penso que todo bom amigo gostaria que em sua morte um amigo de confiança fizesse algo pelos seus. No caso de Davi e Jônatas, Davi quis honrar o seu amigo mesmo depois da morte, e ele fez o inimaginável. O texto diz que Davi já sendo rei procurou saber se havia alguém da casa de Saul vivo, para que ele por amor a Jônatas pudesse fazer o bem (II Samuel 9:1). Amigo verdadeiro é aquele que honra em vida e post mortem.
III – O poder da restituição
Considere as palavras de Davi a Mefibosete:
“E disse-lhe Davi: Não temas, porque decerto usarei contigo de benevolência por amor de Jônatas, teu pai, e te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu sempre comerás pão à minha mesa”. (2 Samuel 9:7)
. Que cena linda, Mefibosete, aleijado, sem poder ajoelhar, se prostra, se inclina, e diz: “Eis aqui teu servo”. Humildade plena! Face a isso, Davi declara a restituição! Amados se nós formos capazes de nos humilhar perante Deus, ele irá restituir tudo que a geração anterior perdeu. Lembra?! No início digo que, provavelmente Mefibosete não entendia porque Jônatas seu pai, tinha renunciado o trono, mas, agora, depois de tanta vergonha e sofrimento Deus usou a Davi para restituir tudo a Mefibosete.
Cumpre observar o diálogo entre Mefibosete e Davi, verbis:
“Então se inclinou, e disse: Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu? Então chamou Davi a Ziba, moço de Saul, e disse-lhe: Tudo o que pertencia a Saul, e a toda a sua casa, tenho dado ao filho de teu senhor”. (2 Samuel 9:8,9).
Importa grifar: “Tudo o que pertencia a Saul e a toda a sua casa, tenho dado ao filho do teu senhor”.
O texto bíblico nos informa ainda mais, diz que o rei Davi não só restituiu tudo, mas o colocou para comer à mesa da realeza todos os dias, como se herdeiro fosse do rei, sentado no lugar do seu pai (Jônatas), pois, sem dúvida alguma, era ao lado de Davi que Jônatas sentaria se estivesse vivo. Vale dizer, todas as vezes que Davi olhava para Mefibosete, via Jônatas sentado ao seu lado.
Conclusão:
A benevolência de Deus é fantástica e nos ensina que quem temos é mais importante do que que o que temos. A solução não está no que, mas no quem. Então, podemos aprender: 1. A confiar na providência e benevolência de Deus;2. A valorizar as amizades que Deus nos deu; 3. A superamos as perdas; 4. A termos humildade; 5.A confiarmos que o Deus que servimos é poderoso para restituir tudo o que perdemos; 6. Que o Deus que servimos além de nos restituir tudo, nos coloca numa posição de honra; 7. Aquilo que não entendemos hoje, só entenderemos depois. Finalmente, grave uma coisa, Deus te chama da terra do silêncio!
De seu conservo Bp.Dr. Alexandre R. Metello