Bispo Alexandre Rodrigues Metello
Teólogo, Missiólogo,
Pedagogo, Advogado, Professor de Português-Literatura,
Filósofo, Sociólogo, Historiador, Psicanalista e Psicoterapeuta.
A UNIDADE DA IGREJA
Introdução:
“Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum”. (Atos 2:44).
Em primeiro plano, é indispensável considerar que a igreja primitiva é um paradigma para a igreja pós-moderna, como foi um modelo para a igreja em outros períodos e momentos da história. Agora bem, indaga-se, por que a igreja primitiva é um exemplo? Porque quando lemos a história da igreja que atuou nas primeiras décadas do Cristianismo, vemos uma igreja forte, destemida e crescente. E ela cresceu muito não por causa da mídia, das redes sociais, ou por causa do seu poder econômico, mas, em virtude da sua verdadeira comunhão com Deus e visceralmente uns com os outros. Então, nessa lição, nós vamos nos concentrar nas características da comunhão da igreja. A coinonia () significa ter tudo em comum. No texto em epígrafe, encontra-se as seguintes dicções: “hesan epí to auto”, significa que “eram sobre o mesmo” e “kai eicon apanta koiná” e “tinham tudo em comum”. Vertidas estão duas maravilhosas verdades, a primeira, a verdade da mesmeidade e a segunda, a verdade da coinonia. Noutro plano, ressalta-se que, uma simples olhadela sobre o texto nos leva a concluir que tudo isso se tornou possível por causa da fé que possuíam em Cristo. o amor se tornou comum, porque, como pressuposto a fé era a mesma.
I – A mesmeidade só é possível se houver dedicação
Isso posto, vamos considerar o que é “mesmeidade”. Assim, a mesmeidade é a concentração que se tem no mesmo sentimento, no mesmo pensamento, na mesma vontade, no mesmo ideal. Cabe registrar o que escreveu o apóstolo Paulo sobre o alegado, leia-se: “ Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões.Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa” (Filipenses 2:1,2). Observe a forte presença da mesmeidade na elocução, de tal sorte que, a elocução consiste em sentir o mesmo, amar o mesmo, animar-se da mesma maneira e pelo mesmo propósito. É muito interessante o vocábulo “”(sympsicoi), ou seja, “a mesma alma”(a mesma psiquê). A igreja primitiva cresceu no mundo inteiro, porque tinha a mesma alma, mas, infelizmente, com o desfilar dos anos, muitos sentimentos contrários a comunhão verdadeira, muitos pensamentos contrários à unidade foram, sorrateiramente, e vagarosamente penetrando na igreja de Cristo. Como bem assinalou o apóstolo Paulo, leia-se: “Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a avareza, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência. As quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas”. (Colossenses 3:5-9).
I.1 – A mesmeidade é ferida quando as obras do velho homem se manifestam
O desgaste da mesmeidade, repisa-se no conceito, mesmeidade é a qualidade de ser o mesmo, e ela é agredida quando todas as mazelas postas acima aparecem, as quais são corolários da velha natureza, ou seja, “palaion ánthropos”, o humano com suas velharias. Nessa folha não cabe comentar cada uma delas, posto que tomaria muito tempo, e muto espaço. Mas, quero sinalizar duas dessas mazelas que estão muito palpitantes em nossa época, e que são reflexos da contaminação do passado glorioso da igreja. Diga-se de passo, a igreja primitiva começou a ser penetrada por pessoas que não tinham a mesma visão, o mesmo sentimento, a mesma alma, o mesmo amor. As duas, as quais me refiro são a avareza e a maledicência.
I.1.1 – A avareza
A primeira a ser considerada é a avareza, ela é tão séria e tão prejudicial à igreja que o apóstolo Lucas separou um capítulo no livro de Atos dos apóstolos para combatê-la, e faço questão de transcrevê-lo, porque muitos crentes não têm o hábito de ler a Bíblia, verbis: “Um homem chamado Ananias, juntamente com Safira, sua mulher, também vendeu uma propriedade. Ele reteve parte do dinheiro para si, sabendo disso também sua mulher; e o restante levou e colocou aos pés dos apóstolos. Então perguntou Pedro: "Ananias, como você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo e guardar para si uma parte do dinheiro que recebeu pela propriedade? Ela não lhe pertencia? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em seu poder? O que o levou a pensar em fazer tal coisa? Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus". Ouvindo isso, Ananias caiu e morreu. Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido. Então os moços vieram, envolveram seu corpo, levaram-no para fora e o sepultaram Cerca de três horas mais tarde, entrou sua mulher, sem saber o que havia acontecido. Pedro lhe perguntou: "Diga-me, foi esse o preço que vocês conseguiram pela propriedade? " Respondeu ela: "Sim, foi esse mesmo". 9Pedro lhe disse: "Por que vocês entraram em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Veja! Estão à porta os pés dos que sepultaram seu marido, e eles a levarão também". Naquele mesmo instante, ela caiu aos pés dele e morreu. Então os moços entraram e, encontrando-a morta, levaram-na e a sepultaram ao lado de seu marido. E grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram falar desses acontecimentos”. (Atos 5:1-11). Eles mentiram contra o Espírito Santo! Morreram por isso! Se eu recebo R$10.000, 00 (DEZ MIL) e dou dízimo de R$100,00 (CEM REAIS) estou sendo mentiroso, e a minha mentira é contra o Espírito Santo. Vamos considerar uma coisa, quem colocou a avareza no coração de Ananias foi Satanás, e, numa inversão situacional e antitética face ao jardim do Éden, pois que, lá no Éden antigo Eva induziu a Adão, aqui, na igreja, no novo jardim do Senhor ele contaminou a sua esposa Safira, e ambos morreram. Hoje, não diferentemente, alguns retém o dízimo, as ofertas, fecham os seus corações quando a igreja tem um propósito, um desafio. Não foi a esmo que Paulo afirma que a avareza é uma espécie de idolatria, chamada de Mamonismo, a qual leva para o inferno, pois nenhum idólatra herdará o Reino de Deus. Aristóteles ensina sobre os dois piores extremos do coração do homem, de um lado, está a prodigalidade, que é o ato de gastar tudo o que não ajuntou e, de outro lado, a avareza, é o ato de não compartilhar nada do que recebeu (de Deus). I.1.2- A maledicência Nos últimos dias, nunca se viu tanto crente falando mal de crente. A igreja está dia após dia colocando os seus pecados nas vitrines para o mundo ver, isso tem sido, assaz prejudicial à igreja. É um querendo ser mais santo do que o outro. O diabo ama esse tipo de conduta, porque ele é o acusador. A maledicência comumente se dá em conversas de bastidores, e consiste em comentários espúrios, suspeitos, perversos. Os maledicentes comumente são os eternos insatisfeitos, os quais estão sempre apontando as deficiências da igreja, dos líderes, pesando e medindo a todos. O maledicente é o que “fala mal” ou o que “mal diz”. O apóstolo Tiago identificou esse pecado como um pecado deveras prejudicial a igreja, posto que também separou um capítulo só para ele, leia-se: “A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno” (Tiago 3:6) Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal. (Tiago 3:8). A interpretação está acontecendo per saltum para nos concentrarmos no que é mais importante, ou seja, o que faz língua perversa, e outra, porque ela se tornou perversa, isto é, qual é causa, é põe às claras que a causa é a inveja amarga. Ao lado disso, leia-se também: “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento contencioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade”. (Tiago 3:14). O capítulo 3º trata da língua maldita e de seu poder destruidor, mas também aponta qual é a sua fonte inspiradora, isto é, a amarga inveja.
II – A coinonia produz crescimento, mas sofre resistência
Já aprendemos em outra aula que, as bases da igreja são: Kerigma (pregação), Didaquê (ensino), Diaconia (serviço), Liturgia (culto) e Coinonia (comunhão). Resta claro, com a leitura do livro de Atos, que a força motriz da igreja primitiva foi a comunhão. A comunhão é chamada por alguns teólogos de soft power, ou seja, o poder suave da igreja, o poder de convencimento. O mundo quando nos olha e nos vê em comunhão é convencido, como está escrito e Jesus ensinou: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. (João 13:35). Salienta-se, o que está posto no livro de Atos, no capítulo 4º, verso 32, considere: “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham”. Em último plano, impende dizer que o texto acima leciona e eu translitero: “cardia kai he psiquê mía”. A unicidade do coração e da alma. A comunhão entre coração (sentimentos) e alma (vontades) para alcançarmos a vitória, a comunhão com Deus e com a igreja para alcançarmos o céu. Para a Aristóteles a comunhão decorre da amabilidade, ou seja, da “cáris” (graça). Já vimos em outras lições que tudo depende da disposição, isto é, a qualidade de quem se posiciona, que assume o posto. Diferente do propenso, já que a propensão diverge de disposição, pois, a propensão sem o móbil da força da vontade nos impele a mediocridade. Que possamos ser como a igreja primitiva, que não meçamos esforços para alcançarmos o crescimento e, assim, avancemos na pregação do Evangelho pelo mundo!